segunda-feira, maio 14, 2018

- original soundtrack -


porque sim


Quando acorda olha para o lado
Se veste bonita pra ninguém
Chora escondida no banheiro
Pras amigas finge que está bem
Mas eu vejo
Eu vejo

Acha que precisa ser durona
Não dá espaço para a dor passar
Tem um grito preso na garganta
Que não está deixando ela falar
Mas eu ouço
Eu ouço

Quase como que anestesiada
Vai deixando a vida carregar
Ela sentiu mais do que aguentava
Não quer sentir nada nunca mais
Mas eu sinto
Eu sinto

Qualquer um que encontra ela na rua
Vê que alguma coisa se apagou
Ela está ficando diferente
Acho que ninguém a avisou
E eu digo
Eu digo


(Ela, Tim Bernardes)

sexta-feira, maio 11, 2018

beluga - beluga, o teu telemóvel toca ou recebes alguma mensagem...?
beluga - não.
beluga - então esquece. 

quinta-feira, maio 10, 2018

- não vai mais vinho para essa mesa -









eu queria, mas não percebo nada destas contas. há uma lógica que me escapa quando estou a 2/3 do final.
vou embora.

quarta-feira, maio 09, 2018

- original soundtrack -


o que gosto nesta música - que, no que diz respeito à letra, é fraca - são estes versos: "Todo o dia de manhã/Enquanto eu tomo o meu café amargo". Porquê? Porque quem a interpreta faz uma pequena, uma impercetível pausa entre "café" e "amargo" e uma pessoa pode assim interpretar estes versos de duas formas. Por um lado, ela toma o café amargo e pensa nele; por outro, enquanto toma o café e pensa nele, amarga.

(...)
Todo dia de manhã
Enquanto eu tomo meu café amargo
É, ainda boto fé
De um dia te ter ao meu lado

Na verdade eu preciso aprender
Não é fácil, não é fácil


Onde você anda
Onde está você
Toda vez que saio
Me preparo pra talvez te ver

Na verdade eu preciso esquecer
Não é fácil, não é fácil
(...)


(Não é fácil, Marisa Monte, interpretação de Silva)


Para que ninguém amargue (é de sementes de papoila. e deve ter chia, linhaça e girassol):
Adolf Fényes
Poppy-seed Cake
1910
Magyar Nemzeti Galéria, Budapest

segunda-feira, maio 07, 2018

- original sountrack -


"pra não dizer que não falei das flores"


bom, por falar em rabo - em corpos, no geral pois chegou a época do ano em que toda a gente escrutina toda a gente -, deixo-vos aqui "o" vídeo. Não a música, mas o vídeo.


"os rios de sémen" do Nick Cave (salvo seja! a expressão é dele; o sémen, não sei) relativamente ao rabiosque da Kylie Minogue em hot pants no Spinning Around marcam o início do novo milénio. O vídeo é de 2000 e tem ares de anos 70, mas perfeitamente integrado no espírito estético daquele tempo. Se o Nick Cave soubesse DISTO, talvez tivesse sido mais comedido no encómio. É também interessante perceber como o modelo de beleza mudou: da mulher pequenina e com ares de francesa, orgulhosamente libertina nas horas vagas, passamos para a mulher animal, portentosa.


(Fade, Kayne West)
- não vai mais vinho para essa mesa -

constipação. de uma narina apenas.
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como "o prometido é devido ou como este post é mesmo dos bons, acho eu...
quotidiano
pois cá estamos nós... o antes é do Bernini. Posto de modo muito simples, é a escultura de um elefante que carrega um obelisco. O projecto já existia, não para esta encomenda em específico, mas para outra que entretanto acabou por ficar sem efeito. Bernini terá ido buscar inspiração para esta composição ao Hypnerotomachia Poliphili, um livro do século XV, XVI, cujo autor é ainda uma incógnita e cujas ilustrações são igualmente estranhas. A história fala de um amor não correspondido entre Poliphio que ama Polia. Num sonho, ele procura alcança-la e nesse sonho - como em todos os sonhos - tudo acontece sem grande lógica: há crítica arquitectónica, referências a Ovídio, erotismo. enfim... de tudo. É por isso que as ilustrações são igualmente estranhas. Entre elas, encontramos aquele que terá sido o modelo para Bernini projectar o elefante que vemos abaixo. Ora bem, havia em Roma um obelisco egípcio encontrado aquando de umas escavações. O Cardeal Francesco Barberini teve ideia de colocar o obelisco junto ao Palácio Barberini, mas a coisa acabou por não se concretizar. Foi o Papa Alexandre VII que fez renascer o projecto. Havia outros desenhos para o suporte do obelisco, mas Bernini modificou um pouco o já existente, não só através da adição de uma base capaz de suportar todo o peso, como também dando nova expressão ao elefante em si. Deu-lhe um ar mais amigável, mas por outro lado, levantou levemente a cauda do animal - talvez para se ver o anus, conta uma anedota que circula desde o século XVII - algo que não existia nos desenhos preparatórios nem na maquete. As outras opções embora válidas (Hércules, por exemplo era uma das propostas) não apresentavam as mais valias do elefante. Tal como se pode ler nas inscrição na base da escultura, o elefante foi o animal escolhido por causa da sua força e o obelisco sobre ele era símbolo da sabedoria divina. (o obelisco era um símbolo do poder terreno dos faraós e por isso em nada se aproxima do poder divino que o Cristianismo lhe confere quando se apropria dos símbolos que encontra).

Voltamos à parte do incunábulo Hypnerotomachia Poliphili que, como referi, se desenrola como num sonho. Ora isto tem muito em comum com o universo surrealista. Os Surrealistas usavam diferentes métodos para alterar a consciência, ou pelo menos para obter imagens alteradas da consciência, como por exemplo a escrita automática, ou o cadavre exquis. Os sonhos eram também importantes e por isso o Surrealismo vai buscar parte das teorias de Freud no que aos sonhos diz respeito. A parte que o Surrealismo foi buscar é a mais conhecida e diz que os sonhos são uma expressão dos desejos inconscientes. E tal como no sonho do Hypnerotomachia Poliphili, em que um elefante pode carregar no dorso um obelisco de toneladas, também no Surrealismo um elefante com um obelisco no dorso pode caminhar sobre delicadas patas de girafa num cenário desconcertante. E Dalí fê-lo não uma, mas duas vezes tal devia ser admiração pelo elefante do Bernini. Ou pelo original no Hypnerotomachia Poliphili.


Bernini
Elephant obelisk
1667
Maria Sopra Minerva, Roma


Salvador Dali
Dream Caused by the Flight of a Bee Around a Pomegranate a Second Before Awakening
1944
Thyssen-Bornemisza, Madrid


Beijinhos, cuidado com as mudanças de temperatura, com as alergias e não se esqueçam de ligar o Ezalo durante a noite.

quinta-feira, maio 03, 2018

- o carteiro -

para aquelas duas... meninas que fizeram comentários ao meu rabo quando passei com calças de ginástica justas e suadas:

amores, poderia falar do vosso pipi arregaçado em jeans que claramente não vos favorecem, mas como sou uma senhora, daquelas que usa pó-de-arroz, deixo-vos um miminho:

domingo, abril 29, 2018

- não vai mais vinho para essa mesa -


quarta-feira, abril 25, 2018

tenho de me retratar: ultimamente, bem sei, os posts andam fracos. Mas existe uma razão: falta de tempo. penso muitas vezes que devia deixar o blog e canalizar energias para escrever sobre aquilo de que gosto (artes visuais e literatura. ekphrasis, mas não só) e que tanta investigação implica. Mas já tanta gente escreveu sobre isso... "Proust e os Cubistas" não salva vidas, não é importante. Não estou a procrastinar, estou só a admitir a minha falta de inspiração que advém do contexto actual... com muita pena minha.
dia 25 de Abril + sapatos altos = dia 24 de Abril

segunda-feira, abril 23, 2018

últimas aquisições (ahahahahahahahahahahahahah):














(bem, vou ler. ler apazigua, faz companhia e "instrói".)


sábado, abril 21, 2018

como é que me levanto? alguém me explica?

sexta-feira, abril 20, 2018

é engraçado: quando penso no meu corpo, imagino-o lindo, mas depois quando me vejo ao espelho sem roupa, tenho vergonha do que vejo. acho-o esquisito. funcional, porém esquisito. com a sua cicatriz cor-de-rosa, a celulite, as ancas largas, os ilíacos saídos, o peito pequeno. esquisito, portanto. 

domingo, abril 15, 2018

sexta-feira, abril 13, 2018

sonhei com um beijo; um senhor beijo. daqueles roubados em público. depois acordei.

terça-feira, abril 10, 2018

beluga - beluga...
beluga - sim...
beluga - sabes que aquilo não é preocupação contigo, nem cuidado, nem atenção, nem carinho...
beluga - sim, eu sei. é "cutucar a onça com vara curta", é curiosidade...
beluga - ...sociológica.
editoras portuguesas que andam ocupadas com José Rodrigues dos Santos e com livrinhos que se vendem dentro de sacos de organza rosa: podiam por favor empenhar-se na tradução de Mircea Cartarescu para português e deixarem essas m***** delicodoces e de mau gosto?

domingo, abril 08, 2018

- original soundtrack -

absolutamente viciada no som disto:

















É você que tem
Os olhos tão gigantes
E a boca tão gostosa
Eu não vou aguentar

Senta aqui do lado
E tira logo a roupa
E esquece o que não importa
Nem vamos conversar
(...)

**engoles a saudade e voltas à tua vida.

- não vai mais vinho para essa mesa -

- o carteiro -

"é fazer as contas"


experiência:
pesquise a palavra "toalha" na Wikipédia e clique no primeiro link que lhe aparecer nessa página (não conta a origem da palavra). é remetido para a página da palavra "tecido". e daí em diante. vai obter o seguinte:

toalha - tecido - biologia - ciência - ciência - conhecimento - facto - filosofia

se fizermos a experiência com a palavra Madonna o resultado é:
Madonna - cantora - musicais - arte - estética - filosofia

e agora com "amor"
amor - emoção - subjectiva - indivíduo - metafísica - filosofia

óculos - ópticos - Física - ciência - conhecimento - facto - filosofia

abelha - insectos - invertebrados - animais - reino biológico - classificação científica - taxonomia - biológica - ciência - ciência - conhecimento - facto - filosofia

Microsoft excel - Microsoft - transnacional - Organização Internacional - organização - administração - ciência social - ciências - conhecimento - facto - filosofia

torresmo - pele - anatomia - biologia - ciência - conhecimento - facto - filosofia

Kim Kardashian - socialite - inglesa - língua germânica ocidental - família linguística - línguas - linguagem - linguística - científico - conhecimento - facto - filosofia


- o carteiro -

agora que passou a Páscoa e podemos voltar a comer carne, venho falar-vos dos malefícios da abstinência. Geralmente, quem se priva dos "prazeres da carne" (a comida, a bebida, os afectos...), acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar asas aos mesmos, sem regra nem medida; ou seja, "quem nunca comeu melaço, quando come se lambuza". devemos por isso comer melaço - e o que mais nos aprouver - amiúde. Caso contrário, a abstinência prolongada, pode levar ao exagero. A menos que tenham um espírito tão estóico quanto o meu e aí sim, podem viver sem os prazeres do mundo. Mas veja-se o caso dos hoolingans no futebol: gente aparentemente normal, que faz o seu "nine-to-five", pais, mães, maridos e esposas com sexo marcado para as sextas à noite quando os miúdos vão para casa da avó, e que, ao fim-de-semana, perante umas cervejas, vêem-se logo em delírios megalómanos de domínio do desporto nacional e do outro. Bebessem eles umas cervejas mais a meio da semana, fizessem eles o amor quando lhe aprouvesse e aqueles espectáculos pouco edificantes não tinham lugar.

O mesmo acontece em relação à religião, penso eu. A minha experiência diz-me que quanto mais apertarmos o nosso freio por motivos religiosos, pior vai ser no dia em que nos libertarmos dele. No meu caso até foi melhor! Durante muito tempo achei que para ser uma boa cristã tinha de seguir os passos de Cristo: comer pouco, vestir de forma modesta, rezar, falar o estritamente necessário. Um dia, quando decidi alargar o cinto destas proibições, acabei por tirá-lo e deixei de rezar, voltei a comer e comecei a ter uma vida normal, dentro daquilo que pode ser considerada a normalidade.

Em todas as épocas houve quem tivesse levado tão a sério as proibições das suas religiões que acabou por cair no oposto, levando consigo dezenas - em alguns casos centenas - de seguidores para rituais que propunham exactamente o oposto daquilo que propõe qualquer religião: assassínio, tortura, violação, violência, infanticídio, parafilias várias... enfim, you name it. Ou seja, os princípios ascéticos muito estritos podem levar a uma revolta contra os mesmos ou, por outro lado, a uma confirmação ainda mais estrita destes. E algumas destas seitas tiveram origem nos primórdios do Cristianismo, quando o mesmo ainda estava a ser decidido na secretaria. Os Carpocratianos, seguidores das teorias heréticas de Carpócrates de Alexandria, defendiam, entre outras coisas, que a propriedade não era natural e por isso, homens e mulheres eram de todos. O sexo entre todos e com todos devia ser natural, uma vez que ninguém pertencia a ninguém. Foram assim uma das primeiras seitas a abolir o casamento, ainda que isto não resultasse de forma igual para homens e mulheres. Com a abolição do casamento as mulheres ficavam a pertencer a todos os homens, mas duvido que todos os homens ficassem à disposição de todas as mulheres. Na mesma altura os Paterniani ou Venustiani surgiram defendendo que a parte inferior do corpo humano havia sido criada pelo Diabo e que a parte superior, por Deus. Uma vez que os seus genitais eram propriedade do Demo, eles nada podiam fazer a não ser obedecer ao Demo e darem-se a todas as práticas sexuais com o mesmo empenho com que o cérebro se dava a Deus. (Os Severiani também acreditavam que o corpo humano havia sido criado em partes por duas entidades tão diferentes quanto Deus e o Diabo e até, que a líbido se localizava na parte inferior do corpo humano, mas lá conseguiram controlar o impulso sexual). No século X, em França, surgiram os Bogomilos, que embora não fossem originários de lá, se espalharam um pouco por toda a Europa. Havia um certo respeito pelos Bogomilos: tal como outras seitas, propunham o regresso a uma vida mais próxima da de Cristo e das Escrituras, principalmente no que diz respeito aos alimentos, ao culto de imagens e à oração. Mas diz-se que estes tinham uma prática pouco comum que em França granjeou vários adeptos: formar uma roda e atirar entre todos os membros da roda, uma criança que, mais cedo ou mais tarde, com tanto puxão e queda, acabava por morrer.

Já no século XIII a ideia de que tudo era permitido foi um pouco refinada através de uma seita chamada Begardos. Defendiam pois que um homem de fé não podia conspurcar-se de forma alguma. Mesmo que esse homem se desse a todas as perversões, a sua fé não permitia que isso o corrompesse. Já no século XIV quem brilhou a Ocidente foi Dulcinius da Lombardia, um padre que apareceu com a ideia de que a cristandade podia ser dividida em três teocracias: a primeira ia desde a formação do mundo até ao nascimento de Cristo (teocracia governada por Deus); a segunda, do nascimento de Cristo até cerca de 1300 (governada por Jesus) e a terceira, a partir de 1300 (governada par lui même! e na qual o sexo desbragado não constituía qualquer crime). Os dulcinistas podiam ser descompensados, mas eram descompensados em grande número: Dulcinius chegou a contar com cerca de 6.000 seguidores! Para além desta provocação com a questão sexual, os dulcinistas foram mais longe - daí o grande número de adeptos. Eles colocaram em causa a legitimidade do Papado ao afirmarem que viviam como os apóstolos: em total humildade e pobreza. Os seus actos só podiam ser julgados por alguém que vivesse como eles, o que não era o caso do Papa da altura, Clemente IV, que não esteve de modas e vai dai ordenou a sua captura e morte, na roda.

Muitas dessas seitas tiveram origem na Rússia onde no século XVII se deu uma cisão entre os cristãos mais ortodoxos e os menos ortodoxos. Houve um reafirmar do cristianismo ortodoxo que criou muitas inimizades. Com a subida de Pedro, O Grande ao poder, a antiga ordem, mais próxima de Roma foi reposta, mas houve quem sentisse que a Rússia se estava a vender. Foi nesses "enclaves" ideológicos que floresceram ideias cada vez mais opostas a tudo o que fosse ditado pelo Vaticano. Havia pois o Chisleniki cujo líder, Taxas Maxim, era um simples camponês com uma capacidade de estabelecer silogismos que convenciam qualquer um. Diz pois Taxas Maxim aos seus seguidores a fim de convencê-los: "Os homens devem ser salvos do pecado. Mas, se não pecarem, não podem ser salvos. Por conseguinte, o pecado é o primeiro passo no caminho da salvação". [1] Foi igualmente na Rússia que no século XIV se criou uma das formas de contornar as regras religiosas mais criativas. Os Lothardi achavam que podiam existir dois comportamentos aparentemente opostos ainda que ambos de acordo com a religião. À superfície a moral religiosa era a que prevalecia, mas cerca de 1,40metros abaixo do solo (aproximadamente três elles), todas as licenciosidades eram permitidas. Reuniam-se em subterrâneos, minas, túneis e nesses locais, fora do radar do olho divino, praticavam flagelação, assassínio e suicídio, entre outras práticas. Mais recentemente, e ainda activos na Rússia estão os Pryguny / Skakuny, uma versão actualizada do que propunham os Begardos na Alemanha no século XIII e deles próprios, já que os Pryguny vêm dos Molokan, uma seita oriunda do século XII. Parece-me que os Prynguny de hoje são muito diferentes dos Molokan de outrora, mas ainda assim verifica-se que casam e copulam entre si (não se abrem a outras comunidades, clãs ou seitas) e por isso é natural que em algumas regiões com menos número de membros as relações consanguíneas sejam comuns.

(continua)